A repercussão da morte da onça Juma e as implicações da posição do Comitê Rio 2016 sobre o episódio

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Juma, com o cabo Carlos Castro, que foi tratador dela por sete anos

A morte da mascote do 1º Batalhão de Infantaria de Selva (1º BIS), a onça Juma, na segunda-feira (20/06), cerca de hora e meia após participar da cerimônia de passagem da Tocha Olímpica, gerou comoção internacional. Justa comoção. O animal é raro e lindo. Teve afeto e conviveu sem problemas com os militares, em seus 17 anos, após ser resgatada quando a mãe foi abatida por caçadores. Não conseguiria sobreviver sozinha antes e, infelizmente, não conseguiu retomar as condições primárias depois, ficando impossibilitada de voltar ao habitat natural.

A repercussão é fruto das novas mídias e da força mítica da Tocha Olímpica – caso alguém ainda tivesse dúvidas disso. Elas empurraram o Comitê Rio 2016 a uma nota que, no calor da comoção, tem dado margem a interpretações maldosas ou desinformadas, que colocam em xeque o trabalho de décadas da sólida instituição de excelência em selva amazônica chamada Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs).

O Cigs recebe militares do mundo inteiro. Vêm aprender sobre a Floresta Amazônica. Soldados e oficiais cascas-grossas, submetidos a testes sobre-humanos em outras plagas, sucumbem aos rigores desconhecidos e à desorientação característicos dessas matas.

Esses militares estão prontos para a defesa nacional. Quando a alta tecnologia se sobrepuser à falta de equipamento do Exército Brasileiro, esses homens, treinados pelo Cigs, serão a última linha de defesa nacional. Utilizarão armas desconhecidas, como a cobra que, ao picar, retira totalmente a imunidade à vasta biodiversidade da selva e derruba a vítima após metros de caminhada mata adentro. E outras, que constituem segredo militar.

Paranoia? Belicismo? Bobagem? Talvez. Mas que pensar de um País com toda essa dimensão de Floresta Amazônica e que não tivesse um Exército treinado para, ainda que minimamente, defendê-la?

Jogar no lixo a experiência do Cigs é tripudiar sobre a memória dos guerreiros que tombaram em tanta Operação Boina e outros treinamentos, alguns até mais severos, enfrentando a mata com a própria capacidade física, testando os limites humanos.

A imagem de Juma ornando a Tocha Olímpica percorreu o mundo. Assim como a do boto cor-de-rosa, ainda não contestada. Até serem sobrepujadas pela trágica notícia da morte da onça. Mostraram a diversidade regional e teriam ajudado a trazer turistas para Manaus, não fosse a ducha de realismo representada pela fatalidade.

Podem ter ocorrido erros. Isso não deve ser descartado. O Exército instaurou inquérito para apurar. Tomara que seja breve e não precise do prazo de 30 dias, nem da prorrogação de mais 30. O episódio exige desfecho rápido.

Registre-se o clima de consternação na caserna. Militares do Cigs e do 1º BIS estão desolados. Não há registro de que tenham perdido uma onça das inúmeras que resgataram. Sim, eles não entram na selva em busca do animal para capturá-lo, mas o recebem como entidade autorizada pelos órgãos ambientais. Praticamente todas as unidades do Comando Militar da Amazônia (CMA), aliás, têm uma onça como mascote.

O felino é o topo da cadeia alimentar. Não há nenhum animal, inclusive o homem desarmado, capaz de enfrentá-lo fisicamente. Este portal registrou, aliás, na matéria sobre a morte de Juma, o vídeo de uma onça caçando, atirando-se de um barranco e retirando das águas barrentas do Solimões um jacaré, entre os dentes.

Não há, claro, qualquer agressividade quando na segurança de uma foto ou de um vídeo. No calor do procedimento da troca de cela, no Cigs, um militar se viu na dolorosa contingência de matá-la ou colocar em risco a vida de um colega.

O Comitê Rio 2016 emitiu, no Twitter, a seguinte nota sobre o episódio:

“Erramos ao permitir que a Tocha Olímpica, símbolo da paz e da união entre povos, fosse exibida ao lado de um animal selvagem acorrentado. Essa cena contraria nossas crenças e valores. Estamos muito tristes com o desfecho que se deu após a passagem da tocha. Garantimos que não veremos mais situações assim nos Jogos Rio 2016.”

Humilde. Correto. Mas não existiria sem a fatalidade da morte de Juma.

Cabe às autoridades amazonenses aprender com tudo isso. E não criar factóides em cima da tragédia, como faz o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), que em nota, exige uma série de documentos nunca antes exigidos do Exército. Ou então que exiba as autorizações para as onças participarem dos desfiles militares anteriores, desde priscas eras, e não exigências novidadeiras, dando a impressão de que motivadas pela tentativa de pegar carona na triste visibilidade do episódio.

Luto por Juma. Luta pela imagem do Cigs, do Exército e do Amazonas.

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Um comentário para “A repercussão da morte da onça Juma e as implicações da posição do Comitê Rio 2016 sobre o episódio

  1. GS 2594 96/4 disse:

    Parabéns pelo artigo ,o Centro de Instrução de Guerra na Selva e a melhor Escola de combate em ambiente de Selva do mundo,aonde se desenvolvem técnicas ,táticas além de equipamentos e armamentos empregados nesse ambiente hostil onde a Selva se não for sua aliada e sua inimiga.Parabens ao glorioso Exército de Caxias e ao Centro de Instrução de Guerra na Selva.

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