Os movimentos de última hora na política manauara e o que está por trás de cada um deles

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Campanha vai revelar no que resultou a acrobacia política feita com Boeing lotado de passageiros-candidatos

Chegou ao fim o prazo para convenções partidárias, que definem os candidatos, e o quadro político deu um salto triplo carpado em Manaus, mudando totalmente o quadro, provavelmente com repercussões no interior. A virada foi brusca. O prefeito Arthur Virgílio, que participou da eleição para governador como aliado do governador José Melo e do senador Omar Aziz, enfrentando duramente o senador Eduardo Braga, agora é inimigo daqueles e aliado deste. A acrobacia com um Boeing lotado de passageiros, porém, tem uma lógica, mesmo dentro da contradição que ela representa.

As pesquisas pré-eleitorais pareciam mostrar um quadro inercial. Os adversários do prefeito, com as variações comuns a esse tipo de sondagem, somavam sempre mais votos que ele, indicando disputa no 2º turno. Tudo caminhava para cristalização de rejeição, que, se nada fosse feito, podia ser fatal para a pretendida reeleição. Pior: os adversários disputariam um 1º turno na base do “quem bate mais no Arthur”, sem que este tivesse alguém em quem bater, sob pena de cacifar o rival.

Marcos Rotta, que aparecia em segundo lugar, não havia lançado candidatura e era o único dos potenciais adversários que sequer se manifestava como pré-candidato.

Arthur conseguiu, com o movimento da semana passada, um adversário visível para a campanha: o governador José Melo. Vai atacar o sistema de saúde e associá-lo à candidatura de Marcelo Ramos, que já recebeu o apoio do principal aliado de Melo, o senador Omar Aziz.

A escolha de Melo é baseada em pesquisas. Graças às trapalhadas na saúde (fez coletiva para anunciar o caos e não executou metade dos cortes), à apologia da crise e aos atrasos no pagamento de fornecedores, ele se tornou o político com a maior rejeição do Amazonas. Parte disso estava grudando no prefeito, que já havia recusado o apoio do governador na campanha.

Melo acusou o golpe. Em entrevista de página inteira ao jornal A Crítica, domingo, ataca Arthur. Afirma que a saúde está um caos porque a Prefeitura não faz a parte dela. De quebra, dá uma alfinetada no ex-mentor Amazonino Mendes: “A saúde precisava de uma arrumada. Era um modelo antigo, da época do Amazonino”, diz.

O próprio Melo sabe que virou má companhia e que se apoiar alguém abertamente vai transferir impopularidade. E  não anuncia candidato – embora o PROS, partido dele, tenha coligado com Marcelo. Deve tentar se esconder nos bastidores e os adversários haja a identificar pegadas dele na campanha.

O troco do governador vem com ataques à “buraqueira na periferia”. Mas aí tem um problema: Melo e Arthur deram coletiva dizendo que o problema existia, estava ficando insuportável, e o governador prometeu subsidiar a Prefeitura com R$ 150 milhões para fazer frente a esse problema. O dinheiro jamais saiu, transformando-se em mais uma falácia do governador.

Outra rusga do prefeito com o governador veio na forma do subsídio aos R$ 0,15 que deveriam ter sido reajustados no preço da passagem de ônibus em Manaus. Melo acertou com o prefeito que bancaria, mas o fez só até dezembro/2015. A partir de então, os burocratas do Estado se encarregaram de criar barreiras que impediram a renovação de convênio e fizeram o problema crescer, até dar na recente crise do preço da passagem.

Melo tem razão ao falar dos buracos na periferia. Arthur também, quanto à saúde. Tomara que a revelação das fragilidades de um e de outro leve à solução dos problemas. Até porque é isso que o povo espera de ambos.

Eduardo Braga, por seu turno, que vivia a perspectiva de uma campanha “caos na saúde X reajuste na energia”, parece que vai assistir de camarote o “caos na saúde X buraqueira na periferia”.

O movimento de Arthur teve outras repercussões.

A Rádio Difusora parecia fechada com Arthur, mas agora Josué Neto se tornou vice de Marcelo Ramos.

A Rede Calderaro tinha o vice de Marcelo, Wilson Lima, mas a mudança por Josué Neto parece não ter afetado as relações da empresa com a candidatura, vide a entrevista do governador no jornal de domingo.

Arthur corre o risco de ficar sem espaço na mídia ou a verba institucional da Prefeitura falará mais alto?

O advogado de José Melo no Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), até aqui, foi Yuri Dantas, muito ligado a Arthur Neto. O escritório de Daniel Nogueira e Marco Aurélio Choy, que defendeu Eduardo Braga, foi contratado por Arthur, há cerca de dois meses, para defendê-lo na campanha da reeleição.

E o interior? Aí é preciso analisar caso por caso. Mas o quadro também sofrerá mudanças, com o PSDB deixando de ser o partido disponível para oposição ao PMDB.

Engana-se quem pensa que a revoada de bois terminou. Muitos ainda voarão, nos próximos dois meses.

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