Fiscal da Receita Federal vence concurso no órgão comparando Manaus à ‘Macondo de 20 casas de barro e taquara’

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O Terminal de Cargas (Teca) do aeroporto Eduardo Gomes é um dos maiores arrecadadores de impostos do Brasil

A Receita Federal admitiu como vencedor, na 7ª edição do concurso “Histórias de Trabalho da Receita Federal”, o texto do atual chefe da Delegacia de Maiores Contribuintes de São Paulo (DEMAC/SP), Marcos Libório Fernandes Costa. Ele faz uma longa descrição da vida em Manaus (14 páginas, 25,5 mil caracteres), onde foi chefe da fiscalização no Terminal de Cargas (Teca) do aeroporto Eduardo Gomes, num relato tão talentoso quanto preconceituoso e desinformado.

Libório trata a cidade como a fictícia Macondo, de Gabriel Garcia Marques, no romance Cem Anos de Solidão, peça exemplar do realismo fantástico (não mágico, como diz o texto), tentando escapar pela tangente, explicando que Manaus “tem mais de 20 casas de barro e taquara”.

O vencedor confunde Eldorado (ou será Coroado?) com Colorado e a Cachaçaria do Dedé com a do Didi. Queixa-se de que aqui falta vacina contra dengue – que só agora a ciência está testando, imagine no já longínquo 2010, quando ele chegou! Queixa-se até da falta de colônia portuguesa, sintoma claro de que não andou pela avenida Joaquim Nabuco nem viu uma instituição centenária e atuante chamada Beneficente Portuguesa.E também da falta de funcionamento do GPS, algo que São Paulo continua tendo em comum com Manaus.

O Elliot Ness, como se auto-sugere, tem uma pena talentosa colocada a serviço de brincadeira de mau gosto com o povo manauara e amazonense. Expõe a própria xenofobia em comparações grotescas da São Paulo “civilizada” com a “clareira no meio da selva” que é Manaus. E não deixa de ter razão: a capital paulista não é uma clareira, mas se tornou a própria selva (de pedra), após ceifar a Mata Atlântica.

Marcos Libório, em seu libelo anti-manauara, apresenta detalhes que coloca sob suspeita o próprio funcionamento da Receita Federal e desconfia do trabalho dos colegas. Mergulhado no egocentrismo, ele conta dois casos em que conseguiu descobrir crimes contra o contribuinte: a entrada de desbloqueadores de sinal de TV a cabo e de componentes eletrônicos de baixa eficiência. No primeiro, Ness, ou melhor, Libório, faz uma pesquisa nos cadastros, dá um telefonema e descobre que o portador de mercadoria dita de uso pessoal tinha loja de eletroeletrônicos; no segundo, o componente de baixa qualidade é flagrado por sua formação pessoal, que lhe dá “vantagem em relação aos colegas”.

No campo das contravenções, descaminho e contrabando, aliás, apresento ao nosso Elliot Ness, agora bem pertinho dele, uma rua chamada Santa Efigênia e um nome, o do chinês Law Kin Chong. Talvez aí o volume de mercadoria ilegal ultrapasse esses 15 itens brilhantemente flagrados por ele.

Ora, o que se imagina é que a Receita Federal tenha procedimento padrão, capaz de detectar casos comezinhos como os citados no texto e que não dependa tanto da “altíssima capacidade” individual do funcionário gabola. Ou, se dependesse, bastaria lembrar a disputa acirrada nos concursos de fiscal para saber que essa é uma mão-de-obra qualificada, indigna da suspeita levantada pelo vencedor.

Marcos Libório Fernandes da Costa encerra o texto com o que deveria ter começado. Derrete-se ao bolo de tapioca da colega de trabalho manauara, após maratona de queixas dos produtos à base de mandioca e do coentro, e confessa as lágrimas que derramou na despedida.

Um texto com pretensões sócio-antropológicas nunca pode ser tão preconceituoso e reducionista. Um paulista é tão brasileiro quanto um manauara. O calor é tão forte aqui quanto no verão paulistano ou carioca ou até mesmo europeu.

Lamentável é que o júri de um concurso como esse, envolvendo a instituição Receita Federal, premie a forma sem análise do conteúdo. E acabe discriminando brasileiros que estão entre os que mais contribuem e menos recebem de nosso País.

Manauara mais radical poderia mandar alguém assim procurar uma Macondo em São Paulo mesmo. Basta ir a Heliópolis ou Paraisópolis ou a alguma das centenas de favelas paulistanas ou das milhares que o Brasil produz.

Ao contrário do que diz o autor, Manaus tem como grande “defeito” o espírito acolhedor, que permitiu a oriundos de outras plagas construírem fortunas aqui. Sem preconceito. Sem xenofobia.

Quando a gente pensa que já viu tudo nessa vida…

 

Clique aqui para ler o texto integral do vencedor do concurso da Receita Federal.

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20 comentários para “Fiscal da Receita Federal vence concurso no órgão comparando Manaus à ‘Macondo de 20 casas de barro e taquara’

  1. Henrique disse:

    Sem comentários para a “peróla” e mais ainda para o primeiro lugar no concurso… Ao que parece, não é só em Manaus que as coisas estranhas existem e acontecem!

  2. Darlan Benevides de Queiroz disse:

    A cidade do Livro do Gabriel Garcia Marques se chamava “Macondo, não Macuco.

    RESPOSTA
    Corrigido, Darlan, obrigado.

  3. José Roberto Girão de Alencar disse:

    Não me surpreendo com a tese estapafúrdia desse rapaz. Os paulistas tem essa megalomania. HAJA vista como chamam de “paraiba’ os brasileiros wud construíram a grande metrópole.
    Minha surpresa é essa “banca” de “notáveis” que premiou.
    Nossos representantes precisam protestar contra essa atitude digna de Trump ou Che Guevara depreciando os mexicanos. Prof. Girao

    1. ocimar disse:

      Pessoal, sou paulista e amo muito Manaus. Por favor, não generalizem. Vivi 18 anos na querida Manaus e raramente o sol se põe semvque eu dela me lembre com saudades.
      Quando alguém diz pra mim que Manaus é “o fim do mundo”, sempre retruco : “não, Manaus é o início do mundo”

  4. Luiz disse:

    Texto “vencedor” de discriminação pura, de alguém com sensatez duvidosa. Gostaria que as autoridades locais fossem procurar defender os nascentes daqui.

  5. Adilson Dantas disse:

    Não vou perder meu precioso tempo lendo esse monumento à estupidez. Além disso, quem dá importância para merda é penico.

  6. Flávio Correa disse:

    Esses são os Administradores da Receita Federal do Brasil! Se com o povo de uma cidade, que o acolheu por um período , alguém age dessa maneira, imaginem com seus colegas de trabalho .

  7. ismael bicharra disse:

    Para nos manauara que aqui vivemos, criamos os nossos filhos, fazemos amigos e, amamos a nossa cidade, este cidadão não é normal no mínimo e’ estranho.

  8. Luiz disse:

    O relato não me pareceu preconceituoso, tampouco desinformado. Trata-se de uma opinião, como esta postagem e também este meu comentário .

    O autor passa, isto sim, as primeiras impressões que teve, entre “preconceitos” e fatos que viveu ao mudar tão drasticamente de ambiente, como ele mesmo relata no texto, ou mudar-se até mesmo de bairro, não traz necessidades de adaptações e estranhezas?

    Seria importante que o texto fosse lido em todo seu conteúdo e humor antes de ser julgado, como fez a comissão que lhe deu o primeiro lugar. Se a RFB faz tudo o que faz da forma mais perfeita, digna e imparcial possível, não aprovaria um texto ,preconceituoso, mesmo sendo a comissão, independente apesar de vinculada.

    Muito ao contrário de criticar Manaus com a intenção de falar mal e fofocar, ele descreve seus sentimentos e opiniões ao viver no local e se integrar com o ambiente. o que pode servir para outros colegas que para lá serão transferidos.

    Será que ele está errado em sentir o que sentiu sendo um cosmopolita da maior cidade do Brasil sendo transferido para o meio da selva amazônica? Já que ele não pode se impedir de sentir, então ele está errado em escrever, falar, divulgar? Ele precisaria mentir ou ocultar para não sensibililzar o manauara, o bairrista ou quem simplesmente ama cegamente a cidade a ponto de não estranhar uma pizzaria que não vende pizza ou uma casa de chá, que não vende chá!!

    Quem ler o texto, terá surpresas e o apreciará. Deixando o bairrismo de lado, certamente poderá apreciar esta obra que dará aos novos “transferidos” uma outra visão crítica, e talvez mais bem humorada, da cidade. Permitindo uma melhor e mais rápida adaptação e outra visão além da que já temos, até desconstruindo preconceitos.

  9. Jamil Derzi disse:

    RFB é a décadas um órgão ao desserviço da NAÇÃO. Simples assim!!!

  10. Lucledson disse:

    Falar de forma pejorativa de uma cidade tão linda e acolhedora como Manaus, é, no mínimo, prepotência e arrogância de alguém que se quer conhece a cidade, e isso ficou claro no texto. Mas o que mais causa repúdio é tal “obra” render prêmio.

  11. Sergio Monteiro de Paula disse:

    …Isso é típico e muito comum com pessoas que desabam de pára-quedas em Manaus, principalmente por obrigação ou necessidade, que, mesmo sendo surpreendidos pelo calor humano e sabores maravilhosos da nossa cidade, mantém o preconceito de cultura limitada de suas origens. Como diz meu amigo Oscar Ramos: “Ôooo mano, tem pena…essas pessoas insistem em ser infelizes”

  12. rubens disse:

    Por favor, brasileiros de Manaus, este texto não expressa em nada, pelo contrario, a opinião sobre os brasileiros que lá residem, eu sou Auditor e tenho grandes amigos manauaras que moram aqui em São Paulo, assim como grandes amigos paulistas que moram em Manaus
    Eu por exemplo fui lotado inicialmente em Bento Gonçalves e adoro aquela cidade, fui muito feliz lá
    Um texto que denigre a imagem de uma cidade serve apenas para mostar a pequinez com que um infeliz vê os outros
    Por favor, repito, a opinião de um infeliz não representa o que o povo paulista pensa a respeito do povo de Manaus. não levem a sério um absurdo desses
    Quanto a premiação par parte da REceita Federal, só resta dizer DEPLORAVEL

    1. Nete disse:

      Concordo plenamente com vc, Rubens. Essa pessoa é literalmente um TROGODITA!!!

  13. Eduardo disse:

    Pronceitodo início ao fim. Morro de pena.

  14. Marco disse:

    Ele facilitou ainda mais a perda de votos do presidenciável ao Planalto (o palácio, não o bairro) o atual governador de SP.

  15. Bosco disse:

    O autor assume falta de conhecimento técnico quanto ao receptor de GPS. Havia, de fato, um deslocamento na projeção, o que causava “erro” no gps. Isso podia ser visto no Google Earth onde o traçado das ruas não ficavam sobre a imagem. Isso acontecia, pelo menos no IGO, mas já não existe mais.

  16. paulo andrade disse:

    Há certos fatos que nos levam a crer nisso, veja o “acidente” da fisioterapeuta. Todos que o noticiaram deram míseras palavras sobre um fato tão grave, ninguem citou o NOME DA LANCHA que também NÃO TEM PROPRIETÁRIO e NÃO TINHA NINGUEM A BORDO com nome, profissão, endereço. A “IMPRENSA” baré, infelizmente, é compatível plenamente à dissertação do fiscal.

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