Amores antigos

Remexendo nos meus arquivos, deparou-se-me o texto que passo a transcrever, mantendo o título original:

“Não devem ser menosprezados os amores antigos. Os verdadeiros, é certo, que tantos há que só no nome assim podem ser chamados, eis que o tempo se encarregou de passar sobre eles seu inexorável apagador, deletando-os de forma irrecuperável como, na modernidade, acontece e se diz na onipresente informática. Mas, se são verdadeiros mesmo, toda cautela é pouca. Eventualmente afastados, retornarão com queixas amargas para expressar a insatisfação pelo que lhes pareceu descaso.

Na rua Leonardo Malcher, ali próximo ao igarapé de São Raimundo, no trecho que vai até a rua Luís Antony, passei minha infância. Não havia asfalto nem calçamento de qualquer espécie e luz elétrica era impensável. “Pobres, com a graça de deus, mas honrados” – para usar o jargão consagrado pelo professor Carlos Gomes –, ali vivíamos em modorra quase medieval.

O ferro de engomar, a carvão, era instrumento de uso obrigatório nas tardes da minha madrinha Irene, que todos os meus irmãos chamavam de Lelena. Era ela que, em dezembro, nos levava para assistir à pastoral do Luso e em seu colo era que eu buscava refúgio quando o satanás, no meio do espetáculo, saltava das profundas e, em pleno palco, se punha a tentar corromper a mansidão do São José.

Diversões? Quais seriam? Eventualmente uma pelada no campo do Titão que eu insistia em frequentar, mesmo contra a vontade de dona Lucíola e apesar de nunca ter conseguido tratar com intimidade uma bola de futebol. Livre, ainda assim em termos, era o futebol com botões de caroço de tucumã, que rolava em torneios infindáveis, com árbitro, bola de cortiça e tudo o mais que entendíamos de direito, no porão da velha casa de número 122.

De tardinha, era esperar na janela que o professor Valois despontasse na esquina da taberna do seu Brito, para correr e encontrá-lo a meio caminho. E dele receber os afagos de um homem que nunca vi com raiva ou descortês e com quem aprendi o que é ser justo.

A vida me afastou das minhas origens. Anos seguidos, muitos anos, estive longe da velha Leonardo, levado de roldão por isso que é a vida. Voltei outro dia por mera curiosidade. O velho amor, verdadeiro sob todos os aspectos, me lançou queixumes mudos, mas implacáveis.

Já não encontrei o Chalé dos Urubus e o “estádio” do Rapapé é um mero arremedo, talvez pensando em demolição para a Copa. O número 122 me olhou soberbo e como que exclamou: “Esqueceste-me? Então nunca mais vais me ver como eu era. Mudei, é certo, mas esperava de ti mais compreensão”.

Perdoem-me todos os meus amores, que se esvaíram, da Manaus da minha infância. Não me punam com seu desprezo e sua eterna ausência”.

Pelo registro do computador, isso que está acima foi escrito há quase uma década. Na essência, nada mudou. Talvez, somente, a dimensão da saudade que insiste em não se afastar e, com isso, acumula mais forças. Dir-me-ão que enveredo por sendas de um romantismo piegas e superado. Será que é isso mesmo ou apenas a lassidão da velhice? Acho que, no final das contas, as duas coisas se misturam.

Vem-me à lembrança a crueldade do hipopótamo machadiano que, a um Braz Cubas delirante, lançou a sentença: “Vives; não quero outro flagelo”. Mesmo tendo em conta o pessimismo do Bruxo do Cosme Velho, a afirmativa chega quase ao terrorismo existencial. Se temos a própria vida como flagelo, o que dizer das circunstâncias em que ela se desenvolve? Entre elas essa coisa indefinível (ah, as perguntas da Heleninha!) que conhecemos como saudade.

Fazer o quê? Talvez, se a genialidade de Einstein tivesse ensinado como recuar no tempo, eu me arriscasse a empreender a viagem. Não sei se valeria a pena porque, como advertiu o filósofo grego, ninguém consegue mergulhar duas vezes no mesmo rio. É a tal dialética jogando a pá de cal sobre as especulações românticas. Fiquemos, portanto, com ela que foi, suponho, quem conduziu a pena de Vinicius de Moraes, quando, falando de fidelidade, jurou atenção prioritária ao seu amor, mas proclamou, quase num conformismo dilacerador: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.

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