O Santo Ofício de cara nova

Os inquisidores deviam padecer de piromania, que é, segundo Houaiss, “distúrbio mental no qual o indivíduo produz incêndios por prazer ou para descarregar tensões”, podendo ainda ser “preocupação obsessiva com o fogo”. Quando não estavam fazendo churrasco de gente, os homens do Santo Ofício, para não perderem o costume, se danavam a queimar livros, jogando nas fogueiras obras de valor inestimável, mas que constavam do “Index Librorum Prohibitorum” (índice dos livros proibidos). Foi a mais triste invenção da igreja católica, levada ao paroxismo sob o argumento de que melhor que acumular conhecimentos era o cuidado com a salvação da alma. E assim viraram chamas obras de Voltaire e Rousseau, destino que também tiveram os trabalhos científicos de Copérnico e Galileu. Até as obras de medicina do persa Ibn Sina, no ocidente conhecido como Avicena, viraram combustível para o obscurantismo.

No mundo moderno, a intolerância ganha roupagem nova, mas, na essência, repete os mesmos erros da visão unilateral e do dogmatismo. Questões como a violência doméstica, racismo, preferências sexuais e etnia têm servido para a elaboração de uma espécie de código não escrito, que busca traçar os limites do “politicamente correto”. A partir daí, basta a suspeita de não enquadramento nos cânones do novo index para que se abra a porta da execração pública que, mesmo sem o uso do fogo, em nada fica a dever ao instrumento de trabalho da Inquisição.

A chamada Lei Maria da Penha foi, talvez e no Brasil, o marco inicial da cruzada hodierna. Já me arriscando à fogueira, lembro que sempre sustentei a inutilidade desse diploma. Claro que ninguém, dotado do mínimo de bom senso, pode tecer loas à violência doméstica. Nem a qualquer tipo de violência, diga-se de passagem, e aí é que a coisa pega porque ofender alguém, física ou moralmente, é proibido desde tempos imemoriais. Ou seja: bater na mulher, no marido, na amante, no namorado já estava dentro da regra de proibição geral e o que a tal lei fez foi apenas chover no molhado. Se o objetivo foi acelerar o rito processual no caso específico de que se trata, rendo-me ao argumento, mas, para isso, não era necessário fazer com que soassem trombetas como que anunciando a própria libertação da humanidade.

Todo excesso tende ao ridículo e este, inexorável, já começa a dar o ar da sua graça. Tadeu Nery, fraterno amigo, envia-me pelo zapzap um enigma capaz de desafiar a própria esfinge. Está ele assim formulado: “Se um homem que virou mulher, bater numa mulher que virou homem, quem vai preso pela Maria da Penha?” Com essa, o próprio Édipo não escaparia de ser devorado porque a questão mexe, a um tempo, com dogmas intocáveis para os noveis paladinos do pensamento e da cultura. Mudar de sexo e ainda ser violento com parceiros que seguiram o mesmo caminho, é ousadia demais.

O recém findo carnaval também serviu de ensejo para uma ampla frente de atuação dos adeptos da nova ordem.  Não queira estar na pele, sem trocadilho, de quem se atreveu a ouvir e dançar a marcha “O teu cabelo não nega, mulata”. Heresia pura e simples, racismo dos mais sórdidos, proclama o edito do incorruptível tribunal de costumes. Na mesma linha de sorte, e a caminho da fogueira, estão os que se deliciaram folgando ao som de “Olha a cabeleireira do Zezé”, ficando impedidos de responder à pergunta: “Será que ele é”?

Foi o Papa Paulo VI quem, tardiamente, só em 1966, extinguiu definitivamente o index do Santo Ofício. Dizem, porém, que saudosistas laicos se empenham para uma reedição, visando a disciplinar o carnaval do próximo ano. Nela estará contida, com absoluta certeza, a história da “Maria Sapatão”, aquela que “de dia é Maria, de noite é João”. Também não poderá faltar no novo catálogo de bom comportamento a alusão ao Juvenal. Lembram-se dele? Ele tinha o sonho de desfilar no Municipal. “Mandou buscar em Paris uma peça de lamê, pra fazer a fantasia bordada em paetê”. Quando, afinal, entrou na passarela, a decepção geral: “Ninguém sabe se é ele, ninguém sabe se é ela”.

Vingando a nova ordem proibitiva, é conveniente esquecer, igualmente, a letra do samba “Nega do cabelo duro” e, por precaução, jogue no lixo, de imediato, a partitura da canção que afirma que “índio quer apito, se não der pau vai comer”. Tudo isso vai ser (se ainda não é) herético.

Quem diria que eu ainda ia estar vivo para ver tanta idiotice!

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