Sábado, 21 de abril de 2018

Com dor ou sem dor

Felix Valois

Felix Valois

Viajar de avião está ficando a cada dia mais difícil, quase insuportável. E não é só o preço das passagens que contribui para isso. Para os fumantes, categoria em que renitentemente me enquadro, os problemas começaram nos anos 90 do último século. Foi a época em que o cigarro começou a ser erigido à categoria de peste negra do mundo moderno, algo cuja eliminação se apresentava como urgente e indispensável, ao fito de garantir a sobrevivência da humanidade. Consequência: proibiram fumar nos aviões e, de modo geral, os da minha espécie hoje são olhados como os leprosos o eram na Idade Média e estou vendo chegar a hora em que nos colocarão sinos no pescoço. Apesar disso, continua morrendo gente do mesmo jeito e das mesmas doenças de antes do início dessa cruzada sanitária.

Depois, já no primeiro ano do novo milênio, alguns idiotas terroristas (perdão pela redundância), jogaram uns aviões contra as torres gêmeas, em Nova Iorque. Em razão disso, e sob a firme orientação e controle dos xerifes da civilização ocidental, todo passageiro é considerado atualmente um terrorista em potencial e, por isso, submetido aos mais singulares constrangimentos quando da singela operação de embarque. Tiram-se sapatos e as calças correm o risco de cair porque os cinturões têm que ser eliminados. Uma tesourinha de unha passou a ser arma de elevado potencial ofensivo e um frasco de xarope, uma bomba prestes a explodir. De mim, certa vez, tomaram um isqueiro, com a informação adicional de que, para embarcar, o tal objeto teria que ser um menor do que aquele que eu portava. A curiosidade me levou a indagar sobre a diferença entre as chamas produzidas pelos dois tipos de isqueiro e isso foi o suficiente para que eu passasse a ser tratado como o próprio Osama Bin Laden. Perguntar-me-á o raro leitor: “E o que você fazia com o isqueiro, se já era proibido fumar”? Ah, meu virtuoso amigo, como você não é dependente não pode saber o que é a delícia edênica de, uma vez em território livre (que ainda existe, por incrível que pareça), poder acender logo um cigarro, depois de horas de torturante privação. Dá vontade até de comer uns quatro ou cinco para compensar.

Veio a vez da comida. Quantas saudades dos voos 204 e 205 da Varig, em que o viajante podia se alimentar com comida de verdade, usando talheres também verdadeiros! “Fica muito caro” e, por isso, “seja banida a comida de bordo de todos os aviões brasileiros”. Servem-lhe, quando muito, água, talvez para impedir que você se engasgue com um biscoito cretino que lhe é oferecido, o qual não pode ser classificado nem como o pão que o diabo amassou. Apesar desse sistema faminto, ninguém teve notícia de que tivesse havido redução de um vintém no valor das passagens. Nada disso  O mercado tem razões que a própria razão desconhece e, se quiser, coma em casa que avião não é restaurante.

Mesmo com relutância, posso até entender esse ponto de vista. Mas agora e sob outro aspecto, a coisa está penetrando nos domínios do surreal. Não é que vão cobrar pelo fato de o passageiro viajar com bagagem? Onde é que já se viu uma incoerência de tal porte? Viagem e bagagem estão umbilicalmente ligados, assim como revólver e filme de faroeste. Quem pensa em viajar, pensa em arrumar a bagagem, porque, se não, vai vestir o que quando chegar ao destino? Esqueça isso. No máximo, ponha uns paninhos de bunda num matulão, carregue-o nas costas e siga feliz na sua viagem de férias, ou de negócios mesmo, que “aqui estamos para lhe proporcionar comodidade e conforto”.

Na minha infância, vi, ali pelos lados da avenida Joaquim Nabuco, uma placa em frente a um consultório dentário que anunciava pomposamente: “Extração com dor, 5 cruzeiros. Extração sem dor, 10 cruzeiros”. A eventual lisura do infeliz paciente o obrigaria a suportar o boticão à custa de dores lancinantes, mas, pelo menos, estava economizando uns trocados. Será que as companhias aéreas e a Agência Nacional de Aviação Civil terão essa mesma sensibilidade? Tenho sérios motivos para duvidar e acredito que, “com dor ou sem dor”, as passagens vão continuar com preços proibitivos. Coisas da livre concorrência.

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal.

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