Tinha Sinhá

Estava eu comodamente lendo, na minha “cadeira do papai”, e eis que de repente vejo surgir à minha frente a figura da minha tia Sinhá. Nada de extraordinário haveria nisso, não fora pelo fato de que ela morreu há mais de trinta anos. Realidade, delírio ou sonho, não sei, o certo é que lá estava a velhinha, com o seu não mais que um metro e meio de tamanho, envergando um vestido de chita e tossindo como o fazia nos antigos tempos da rua Leonardo Malcher. Não lhe fui buscar nenhum xarope. O medicamento não tinha nenhum efeito na bronquite crônica que acometia o corpo humano e imaginei que muito menos haveria de ser eficiente se aplicado em um ectoplasma. Fiquei esperando o término da incômoda e duradoura sessão de tosse, quando ela, então, me admoestou: “Você ainda não tomou a bênção”. Fi-lo e, uma vez abençoado, indaguei sobre a razão de tão prazerosa visita, temporã, é verdade, mas bem-vinda, já que ficou para trás a época em que eu tinha pavor de fantasma.

Com a voz baixa e rouca, ela assim se pronunciou: “Você deve saber que lá pelo céu não existem essas modernidades, como internet, zapzap e Skype. Mas, embora em muito pequena quantidade, sempre vai gente daqui pra lá e é impossível deixar de ouvir as fofocas que, lá como cá, se propagam com a velocidade da luz. Vai daí, eu resolvi dar uma fugida para vir aqui e saber o que há de verdade nessas conversas. Por exemplo: é procedente que hoje homem pode casar com homem e mulher, com mulher”? Tentei não sorrir porque a indagação era, em si mesma, de alto potencial explosivo para os domínios do “politicamente correto”. Optei pela concisão e lancei um simples “é, sim, titia”. Ela me olhou muito séria e comentou: “Como é você que está dizendo, eu acredito, mas, no meu tempo, não havia dessas relaxações. Eu mesma, que morri virgem, com a graça de deus, sempre soube que, no primeiro caso, dá lobisomem, e, no segundo, jacaré”.

Se assim prosseguisse, a conversa, já se viu, ia ficar muito perigosa. Tentei mudar de rumo e arrisquei: “E por lá, pelas paragens divinas, o que é considerado importante, o que vocês fazem”? Resposta: “Fazer, fazer mesmo, a gente não faz quase nada. Afinal de contas, alma não tem muita propensão ou habilidade para o trabalho. Passa-se a eternidade num ócio benfazejo, com a vantagem de que os anjos e querubins são excelentes no manejo da harpa e do violino. Tocam muito Mozart e tocam bem e você há de convir comigo que estar bem acomodado e ainda se deliciando com uma sonata mozartiana, chega perto da glória”

“Preocupação então é zero”, ponderei. “Nem tanto”, foi a réplica. Não contive a curiosidade e quis saber com o que se poderia preocupar uma alma que goza das delícias do abrigo celestial. A velhinha não se fez de rogada: “Veja você. Agora mesmo o pessoal do inferno está pedindo nossa ajuda para a participação em um movimento muito sério que se desenvolve nos domínios do capiroto”. E explicou: “Como se não bastasse as almas de lá terem que aguentar aquele calor verdadeiramente infernal, o satanás ainda quer que elas paguem uma tal de previdência, mesmo aquelas que já estão trabalhando nas fornalhas há mais de dois mil anos”.

“Quer dizer, então, que vocês se comunicam com os infelizes que foram lançados nas profundezas”? E ela: “Claro que sim. Afinal de contas as almas unidas jamais serão vencidas e nós temos até permissão de, vez por outra, dar uma descida até aquele local efetivamente desagradável para ver se podemos dar algum tipo de ajuda aos companheiros e companheiras que ali mourejam”.

Insisti no tema: “Quer dizer que o INSS do inferno está falido”? – “Falido e mal pago”, obtemperou minha velha tia, com este adendo: “Acontece que as almas de lá ponderam, a meu ver com justa razão, que não foram elas as responsáveis pela quebradeira generalizada. Muito ao contrário, sempre pagaram em dia suas elevadas contribuições, de tal forma que, se alguém tem que pagar a conta, que sejam os verdadeiros ladrões. Nós, do céu, estamos de pleno acordo com os coleguinhas do inferno e estamos torcendo para que o parlamento satânico rejeite a tal proposta”.

Fez-se, então, um silêncio e, tal como veio, a minha tia Sinhá tinha sumido da minha vista. Em vão a chamei de volta. Mas, no assento da cadeira que ocupou, encontrei um bilhete escrito com tinta indelével. O bilhete assim dizia: “Voltarei assim que souber do resultado da reforma previdenciária”. Já aguardo ansiosamente.

 

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