Questão de gosto

Felix Valois

Felix Valois

Por Felix Valois

As “misses” do século passado tinham pelo menos dois pontos em comum: eram lindas e todas, sem exceção, haviam lido “O Pequeno Príncipe”. Impressionante como a ingênua ficção do francês Exupéry caiu no gosto das belas. O principezinho alienígena, com sua filosofia de beira de igarapé, estava em suas mesas de cabeceira, mesmo sem explicar como chegou à Terra sem ser detectado pelas inúmeras estações espaciais da já poderosa NASA. Era um forte indício de que a cantada e decantada perfeição da mãe natureza está mais para mito do que para realidade. Fica difícil compreender como se conseguiu encimar corpos esculturais com coifas absolutamente vazias, aptas, apenas e talvez, para realizar o sonho da Dilma de estocar ventos.

Os tempos passaram e chegou a época em que uma outra obra prima veio a ter primazia entre as impecáveis e classudas madames do Society. Davam elas demonstração de muita ciência e compenetração, dissertando sobre as maravilhas descritas pelo americano Richard Bach no seu “Fernão Capelo Gaivota”. Neste aspecto, tenho que revelar a verdade absoluta: como nunca tive acesso a trabalho de tamanha magnitude, fui obrigado a recorrer à wikipédia para poder ter noção de quanto um simples voo de gaivota é capaz de influenciar e cativar pessoas. Diz lá o resumo que é uma obra sobre “liberdade, aprendizagem e amor”. Tenho cá minhas dúvidas, mas, admitindo que seja, anda prefiro o pessimismo de Machado e a exuberância de Hugo. Quanto às gaivotas em si mesmas, fico do lado do peixe e de sua advertência defensiva, tão ao gosto da sabedoria popular.

Que não me acusem de discriminação contra os ricos. Deles não tenho nem inveja. Apenas constato que a sensibilidade e o bom gosto literário não são muito abundantes em tais plagas. Vem-me à lembrança a fala do ator Michael Douglas, no filme “Wall Street”: “os ricos fazem questão de demonstrar que adoram animais, mas detestam gente”. Dava-se que alguém questionava a personagem sobre o investimento milionário que um magnata se dispunha a fazer em um zoológico. Não sei bem qual é a relação, mas é impossível deixar de recordar que o nosso Juca Chaves, implacável e impagável, lançou a sátira mordaz: “Marido rico, burguesão despreocupado/Ele é casado com mulher burra, mas bela/O filho deles é político ou tarado/Caixinha, obrigado”.

Talvez seja alguma derivação da lei do menor esforço que leva determinadas pessoas à imaginação de que é possível substituir o que é bom, técnica e literariamente, por meros simulacros. Quando eu lecionava na Faculdade de Direito da UFAM, fiquei literalmente abestalhado com o seguinte incidente: durante a aula, um aluno folheava uma revista que tinha aparência, forma e jeito de gibi. E era um gibi. Claro que me senti ofendido e indaguei se a aula estava assim tão desinteressante. E ele: “Não professor, estou acompanhando por aqui o que o senhor está explicando”. E me mostrou a capa da coisa. Lá estava escrito: “Direito penal em quadrinhos”. Convenhamos que é difícil de engolir. Fiquei imaginando Nelson Hungria vestido como o super-homem e explicando à Lois Lane as dificuldades que se apresentam na configuração da tentativa nos crimes qualificados pelo resultado. Ou Beccaria, encarnando o capitão América, e usando seu escudo para proteger as vítimas do direito penal do terror.

Por tudo isso, já nem chego a estranhar quando alguém me fala, achando que fez um grande negócio, que comprou por cem reais o ingresso para assistir ao show de uma dupla sertaneja. Como diria a minha avó: “Benza deus”. É bem certo que um fato como esse nem penetra nos domínios do absurdo porque existe, por incrível que pareça, gente que também gasta seu rico dinheirinho numa apresentação de axé. A enumeração seria extensa, quase infinita. Não tenho espaço nem tempo para ela. Fico, pois, por aqui, até para evitar que algum tresloucado me queira carimbar com a pecha do esnobismo. Estou longe, muito longe, de ser um esnobe. Apenas quero significar que, mesmo sendo verdadeira a afirmativa de que gosto é como o pescoço francês, cada um tem o seu, isso não significa que nos tenhamos de render ao império da mediocridade. Longe disso. O fato de Lula confessar que nunca leu um livro e, apesar disso, ter sido presidente da República, não pode ser incentivo à inutilidade. É preciso não esquecer Descartes: “Penso, logo existo”.

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal.

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