Ser ou não ser careca

Felix Valois

Felix Valois

Por Felix Valois 

A marcha de carnaval afirma ser “dos carecas que elas gostam mais”. Desfrutando dessa condição há mais de cinquenta anos, acredito que tenho legitimidade para dar minha opinião sobre a matéria. Não que ela me interesse muito ou tenha alguma transcendência. Longe disso. Ser ou não ser careca é coisa de mera constatação, pois nunca tive notícia de que, para os predestinados, tenham surtido qualquer efeito as drogas voltadas para evitar a queda dos cabelos. Caem e pronto. Caem como cascata e nem petróleo bruto consegue evitar que, uma vez iniciada, a derrubada dos pelos possa ser contida. Implacável, ela busca, sôfrega, o seu objetivo final, que se resume naquele brilho refulgente do couro cabeludo, o qual, então, deixou de sê-lo, eis que adquiriu a aparência e a forma das bolas de sinuca.

Quanto à suposta preferência das mulheres, cuido ter havido no mínimo um exagero dos compositores carnavalescos, que, informa o doutor Google, foram Arlindo Marques Junior e Roberto Roberti, lá na década de quarenta do último século. Desde mal entrado nos vinte anos, exibo esta gloriosa calvície que bem poderia ser total para evitar dispêndio de dinheiro com o barbeiro, só para aparar os poucos pelos que, recalcitrantes, se espalham pelas laterais do crânio. E, se é verdade que nunca fui tratado como um Quasímodo, a ponto de causar medo, também é verdade que jamais nenhuma senhorita se quedou em contemplação extasiante, assim como se estivera diante de Clark Gable ou Alain Delon, ou de qualquer outro astro cinematográfico, desses que provocam suspiros profundos. Tirando a prova dos nove, acredito não ter de que me queixar nesse campo específico. Posso até, modestamente, dizer que estou no saldo positivo.

Afinal de contas, quem é que liga para o fato de ser careca ou não? Eu, como já disse, nunca dei a mínima importância a essa extravagância da mãe natura. É certo que os da minha condição têm sido vítimas, ao longo dos tempos, de uma pitada de discriminação. Mesmo esta, porém, está mais para os domínios da gozação do que da ofensa propriamente dita. Era Millôr Fernandes, salvo engano, que dizia, por exemplo, que careca só serve como ponto de referência. O sujeito se vira para o amigo, no estádio de futebol, e pergunta: “Está vendo aquela moça, ali? A que está sentada ao lado do careca de camisa azul”? Ou então: “Estou falando daquele tipo ali, com cabeça de Pinduca, que está na terceira fileira de baixo para cima”. Os pessimistas dirão que isso, no fundo, camufla um preconceito. Convenhamos que tal entendimento é uma exacerbação do politicamente correto porque, ao fim e ao cabo, não foi emitido nenhum juízo de valor sobre a carequice em si mesma. Já os otimistas, puxando brasa para sua sardinha, haverão de se ufanar por terem sido objeto de destaque em plena multidão. Tolice pura. Nem preconceito nem destaque, apenas a evidência de que, sendo a maioria cabeluda, os sem cabelo necessariamente terão que ser a exceção, o que não é, não foi e nem será nenhum demérito. Nada que justifique a criação de um Movimento dos Carecas Ofendido, pleiteando a aprovação de uma lei, nos moldes da Maria da Penha, para proteger os direitos e a integridade física e moral dos calvos.

Dizem por aí, não sei com base em que postulado científico, que não se tem notícia de, algum dia, ter existido um eunuco careca. Grande coisa. Ao que me consta, o desempenho sexual masculino não tem nada a ver com a eventual careca, pelo menos com aquela de que me ocupo nestas mal traçadas linhas. De outro lado, se formos balancear capacidade intelectual, tenho que os pratos ficarão em equilíbrio, tendendo a confirmar o provérbio latino de que “a virtude está no meio”. Vladimir Ilitch, o grande Lênin, era careca e a ele a humanidade deve a condução de um movimento revolucionário, responsável pela propagação do ideal de solidariedade e fraternidade socialistas. Mas o nosso condoreiro Castro Alves encantava a multidões com sua cabeleira basta e esvoaçante e não há jovem digno de tal nome que não tenha delirado, lendo ou ouvindo a conclamação: “Quebre-se o cetro do Papa/Faça-se dele uma cruz/E a púrpura sirva ao povo/Para cobrir os ombros nus”.

Concluo esta crônica, que, acredito, entrará, como tantas outras, no rol das inutilidades. Os carecas não ganharam nem perderam. Da mesma forma, os cabeludos. Pura falta de assunto. Mas quero terminar com um consolo para todos e que se há de transformar num apotegma: pior, muito pior do que ser careca, é pintar o cabelo. Tenho dito.

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal.

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