Sofrimento e solidariedade

Felix Valois

O sofrimento alheio nunca me deixou indiferente. Mesmo em relação a estranhos, pessoas com quem nunca tive contato, a notícia de uma cruel desventura me provoca como que uma pontada de angústia, numa espécie de solidariedade que transcende as explicações racionais. É da minha natureza. Ainda hoje pensava eu na criminosa indiferença do governo do Estado quanto àqueles seres humanos jogados ao léu nas proximidades da rodoviária de Manaus. Como se pode permitir e tolerar um espetáculo tão degradante? São dezenas (talvez centenas) de pessoas, vivendo ao relento, sem abrigo e sem alimentação, sem o mínimo daquilo que embasa a chamada dignidade do ser humano. Ninguém, absolutamente ninguém, de livre e espontânea vontade, abandona sua terra natal para mendigar em plagas estranhas.

Haverá quem diga (a bancada da bala no Congresso, por exemplo) que já temos pobres em quantidade mais que suficiente para ainda termos que nos preocupar com os miseráveis estrangeiros. Pobre e triste dialética! Estúpida, acima de tudo, porque, se desconhecemos a unidade em que se subsume a espécie humana, distinguindo os indivíduos por origem ou raça, não fazemos por merecer o primeiro lugar na escala de evolução. Ademais, a pobreza e a fome não têm pátria. São universais e suas características são as mesmas nos trópicos ou nas estepes geladas, independendo dos graus de latitude e longitude.

Sei também que, sendo venezuelanos os tais indigentes, alguns proclamarão, cheios de empáfia: “Bem feito. Quem mandou votar no Chavez e dar apoio ao Maduro”? Raciocínio que, transportado para o caso dos haitianos ocorrido há pouco tempo, equivale a tirar satisfação com um terremoto, culpando o deslocamento das placas tectônicas pela desgraça que se abateu sobre aquele povo. Os cristãos de qualquer matiz hão de ver nisso a ausência de caridade. Sem lhes tirar a razão (quem sou eu para tanto?), prefiro detectar uma sandice em alto grau de desenvolvimento, daquelas que, em tempos de antanho, eram tratadas com choque elétrico.

Porque afinal, meu escasso leitor, o problema de que cuido (como, de resto, o da miserabilidade como um todo) não se há de resolver como a ingênua distribuição de migalhas e restos de pão e bolo. Se um gesto como esse serve para amainar temporariamente a fome e serve, também, para gestar um pouco de tranquilidade na consciência do gentil doador, está longe de atingir as raízes do incômodo, que permanecerão intocadas. São elas mais profundas, completamente fora do alcance da simples manifestação de boa vontade.

Mas, atribui eu, no início, ao governo do Estado a responsabilidade pela situação calamitosa dos flagelados. Pois não é que, enquanto enfrentava o teclado do computador para produzir estas mal traçadas, me chega a notícia de que o Tribunal Superior Eleitoral confirmou a cassação do mandato do doutor José Melo e de seu vice? Que estranha ironia! E, se querem que eu lhes diga a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, aqui vai ela: também senti pena do governador cassado. Não que a sua administração vá me provocar saudades. Nem sonho com isso. Abúlico, inexpressivo, o doutor Melo não logrou dizer a que veio a longo dos trinta meses em que governou o Amazonas. Mas deve estar sofrendo com o golpe que lhe foi desferido e isso, só isso, já lhes disse, é suficiente para despertar aquela pontada de angústia de que falei.

Tenho, porém, que ir além dessa simples constatação, formulando a pergunta dolorosa que não quer calar: sai Melo e quem vem lá? Quem, minha gente, entrará na posse da chave da burra estadual? Dos últimos filmes que vi ultimamente a respeito do tema, nenhum me encoraja a encarar uma reprise. Seria, no mínimo, um exercício masoquista e (por que não dizer?) sádico também, já que não seria eu o único a sofrer as consequências de tal peripécia. Calma e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, é lição ancestral. Calmo eu estou e não tomo o caldo porque, francamente, é iguaria que não me apetece. Mas, se ela puder ajudar na preservação da incolumidade financeira da minha terra natal, fiquem certos de que a devorarei. Porque, permitam-me o desabafo, estou cansado de ver o lugar em que nasci ser saqueado, com pontes e estádios, enquanto minha gente “anda falando de nada e olhando pro chão”. De toda forma, se ainda sobrar o caldo de galinha, que o novo faraó amazônico se digne, pelo menos, de distribuí-lo entre os que têm fome, assumindo uma postura de responsabilidade que, antes de ser um desejo, á uma exigência de todo um povo.

Não sou muito otimista quanto a isso. Na verdade, insignificante como sou, só me é dado esperar sentado e ver a caravana passar. E, como não há caravana que passe sem que os cães ladrem, que esse latido tenha, pelo menos, o som de alerta para os que sempre se consideraram acima do bem e do mal. Uma coisa é certa: continuo tendo orgulho de ser amazonense, sem me importar com façanhudos que só conseguem ver aqui a fonte inesgotável de suas riquezas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Facebook