Mamãe, 95, por todas as mães

A mãe, já idosa, debruça-se sobre o parapeito da janela que dá para o quintal, na casa de barro, coberta de palha. E deita a dar conselhos à filha, enquanto o marido desta, pescador, tarda a chegar. Essa cena, típica de minha infância, é traçada por minha mãe, 95 anos, na cama de hospital onde convalesce, no hospital Beneficente Portuguesa. Está em delirium. Médicos e enfermeiros não têm como saber que minhas lágrimas vêm tanto do estado de saúde dela, quanto das lembranças que afloram e da certeza de que ela está revendo a vida simples e feliz daqueles tempos em Parintins.

É Dia das Mães e olho para ela pensando no que poderia fazer para homenageá-la e demonstrar a imensa gratidão pelo que fez por nós, filhos, netos e bisnetos. Olho e vejo refletidas as vidas de tantas mães, todas elas, nos seus olhos fechados quando, manhosamente, estende a cabeça para se aninhar em meu colo.

Mãe é especial. Cada uma com suas peculiaridades. É capaz de entregar metade do prato de comida para o filho e de buscar, na vizinhança, o complemento para o almoço.

Minha mãe, nesta doença, tem lutado bravamente.

Entrou, há cerca de 45 dias, com uma pneumonia e derrame pleural. Na idade dela, disseram-me os médicos, o problema se agrava e é quase certo que acabe na UTI. Três dias depois, ela estava em casa. Só depois soube que o ciclo de sete dias de antibiótico precisava ser cumprido no hospital. Ela voltou, entrou em inanição, parou de comer e acabou mesmo na UTI do 28 de Agosto – onde o atendimento é de qualidade e os profissionais são de alto nível.

Dona Raimunda, contrariando os prognósticos, superou pneumonia, arritmia, pressão alta, infecção urinária e a previsão de que não conseguiria mais se alimentar sem a ajuda de uma sonda nasogástrica. Chegou a reunir médicos e enfermeiros, já em leito da Beneficente, para cantar “Segura na mão de Deus” e orar por todos.

Falei em delirium? Aprendi, nessa luta, que o idoso pode facilmente perder a lucidez. Basta tomar um pouco menos de líquido (é preciso dar água para eles, mesmo que não queiram, porque não sentem sede), baixar a glicose ou ter qualquer tipo de infecção e o delirium aparece.

Delirando, ela vê papai, Zé Caiá, falecido há cinco anos, aos 90, voltando da pescaria, e vovó Rosa dando conselhos. Suponho que eles estejam velando por ela e que esses sejam sinais da proximidade espiritual deles todos. Meu pai, no hospital, em seus últimos momentos, se desesperou dizendo para “tomar cuidado com os meninos” e depois soltou um suspiro de alívio com a expressão “graças a Deus que nada aconteceu”. E meu filho mais novo, naquele exato momento daquela madrugada, sofria acidente de carro, do qual saiu ileso.

Lúcida, dona Raimunda pergunta pelos netos, nominando-os um a um, por mim e por Tereza, incansável na luta pela saúde dela.

Tenho certeza de que todas as mães querem, também, encostar o rosto no colo de cada filho. Hoje e sempre. E deitarão em troca um olhar profundo, acolhedor, completo, capaz de aquecer a alma.

Feliz Dia das Mães.

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5 comentários para “Mamãe, 95, por todas as mães

  1. Parabéns pelo texto carregado de emoção querido amigo Marcos Santos. O relato sobre contado em rendida Homenagem a todas nós mães, reflete a essência e a pureza de sermos mulheres fortes frente à realidade da vida e ao forte instinto de protejer nossa prole. Que sua mãe seja sempre sinônimo de amor paz resiliência e exemplo de vida pra todos nós. Obrigada pela homenagem. Bjo grande

  2. João Florêncio disse:

    Amigo e irmão Marcos Santos, entendo perfeitamente o que se passa em teu coração, no mais íntimo do teu ser. Mãe é uma pessoa especialíssima que libera palavras de terno amor e proteção para com seus filhos, netos, bisnetos e mais. Não é possível mensurar de onde pode sair tanta sabedoria, carinho, compreensão e conforto. Nosso Deus sabe e municia os corações das mães de tanto carinho, amor e fortaleza para passar por cima de todas as dificuldades, para se manifestar sempre sabiamente em qualquer situação.
    Receba nosso carinho e oração em favor da saúde da sua mãezinha,
    Nancy e João Florêncio

  3. Mercinha Marinho disse:

    Emocionante texto, Marcos! Feliz dia das mães! Aproveita muito enquanto ela está do teu lado, a minha também está aqui comigo. Ontem perdi minha nora querida pra uma doença fulminante e não identificada. Todos na família estão arrasados.

  4. Prof. GIRÃO disse:

    Linda msg sobre a igualdade de todas as mães.
    Só muda o nome Ramunda Teresa Cristina e o mais comum: Maria.
    Lembrei minha mãe em Itacoatiara cuidando de 14 filhis

  5. Roselene Medeiros disse:

    Caríssimo Marcos,
    Pura emoção!! É o que sentimos lendo esse texto, aliás na minha humilde opinião, tens o dom de colocar no papel toda emoção, clareza, beleza…um dos melhores textos que conheço.
    Feliz de nós que ainda podemos desfrutar da companhia de nossas mães. A minha mora em Parintins, mas temos um ritual diário de nos falarmos e contarmos todas as novidades e tem novidades todos os dias.
    Que Deus abençoe sua mamãe.

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