O processo administrativo da Prefeitura. Ou a loucura de administrar Manaus. Ou a saída da Semcom

Buraco gigante na drenagem profunda da Torquato Tapajós mexeu com o trânsito na cidade. Mas buracos são apenas a parte visível dos enormes problemas de Manaus

Um buraco abre na Torquato Tapajós. Só uma pista funciona. O trânsito pira. A solução parece encaminhada quando chega a notícia de que abriu outro, na Silves, esquina com a Castelo Branco. E mais outro, na Lóris Cordovil. O prefeito Arthur Virgílio interrompe a convalescência em São Paulo, onde operou um câncer, e dispara telefonemas. O vice-prefeito Marcos Rotta, no exercício do cargo, faz plantão ao lado do buraco principal, na Torquato, até vê-lo fechado.
Buracos desse porte, dos grandes, tipo os capazes de fechar uma avenida fundamental para o caótico trânsito da cidade, são a face mais visível da administração pública manauara. Mas não representam a enésima parte dos problemas.
O Sindicato dos Rodoviários e o Sinetram, por exemplo, vivem às turras. A representação dos trabalhadores se alimenta de greve e não hesita um segundo em deixar 300 mil cidadãos sem transporte quando um patrão atrasa uma cesta básica ou cobra com maior dureza uma peça quebrada no ônibus. Uma. Unidade. É o modo de mostrar força. E a cidade inteira vai ficando sitiada, o comércio perdendo milhões, o Judiciário sendo desafiado.
Os dois lados dessa briga, verdade seja dita, são faixa-preta em negociação. Sabem exatamente o que podem tirar um do outro. E da Prefeitura. E dos cidadãos.
Como explicar à cidade que cada ônibus alternativo ou executivo ou pirata ou clandestino representa passageiros a menos no sistema e pressiona o preço da passagem para cima?
Arthur Virgílio, ao eliminar os subsídios da passagem de ônibus, tomou a atitude mais corajosa de governante manauara em décadas. Sofreu duro golpe na própria imagem. Mas resolveu um problema que iria atormentar a administração nos próximos anos, quem sabe décadas, tornando-se incontrolável bola de neve.
O subsídio, ano passado, custaria R$ 16 milhões aos cofres municipais. O Governo do Estado não pagou a parte dele e o valor subiu para R$ 32 milhões. Este ano, com o reajuste da passagem de R$ 3 para R$ 3,30, preço final ao consumidor, a Prefeitura teria que pagar R$ 60 milhões. E, quando o governador José Melo decretou o fim do subsídio ao combustível e ao IPVA dos ônibus, o total a ser desembolsado pelo erário municipal chegaria perto dos R$ 100 milhões, em 2017, para manter a passagem em R$ 3,30.
Pagar o subsídio à passagem de ônibus significava, às vésperas do verão, não ter dinheiro para tapar os buracos que ameaçavam sufocar a governabilidade. Quer, aliás, um parâmetro seguro de político sem noção? Veja o cara que critica o reajuste da passagem de ônibus e, ao mesmo tempo, o subsídio municipal e os buracos na cidade. Ele não consegue ver o quanto essas coisas estão interligadas e é muito tapado ou não quer ver e é desonesto. Só existem essas duas opções.
Prefeito é figura solitária. Ninguém vai até ele oferecer um copo d’água ou qualquer favor desinteressado. É preciso uma montanha de paciência para filtrar o interesse público nesse emaranhado. Governar é discernir entre “pegadinhas” e ideias valorosas, entre o cativante elogio “baba-ovo” e a dura sinceridade leal.
Não podia escrever essas coisas até a sexta-feira (07/07), quando pedi demissão da Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom). Detesto puxa-saco e mais ainda ser confundido com eles. Mas essas verdades precisam ser ditas.
A razão majoritária para minha saída é o fim do ciclo. Organizei a Semcom. Deixei-a pronta. A equipe está afinada e os procedimentos azeitados. Não cito ninguém para não ser injusto e evitar prejudicar quem quer que seja. Mas foi uma enorme felicidade encontrar juventude e experiência misturada a tanto talento e dedicação.
Muito legal ajudar a “resolver” um comercial escrevendo o texto, mexendo no roteiro ou apontando a imagem que faltava. E trafegar entre os fakes, militantes e criadores de tendências nas redes sociais.
Foram seis meses que valeram como mestrado e doutorado, no novo mundo em que se move a comunicação.
O secretariado municipal em geral, no qual encontrei apoio e companheirismo, tem exercitado a criatividade e certamente oferecerá boas surpresas à cidade nos próximos anos. Sou grato à parceria de todos.
Aí vem o desapego a cargos de todos conhecido. Errou quem apostou que faria qualquer coisa para ficar os quatro anos da atual gestão ou que orçamento polpudo me afastaria de princípios. Ouvi muita bobagem a esse respeito, no silêncio obsequioso e disciplinado que me impus, buscando evitar o desvio de foco do público para o pessoal e ciente de que secretário de Comunicação é para fazer acontecer, não para aparecer.
Sou muito grato ao prefeito Arthur Virgílio pela confiança. E a Tereza Cidade, pelo comando firme e competente deste portal (pms.am) nesses meses de ausência.
Transcrevo, a seguir, minha carta de demissão:

Excelentíssimo Senhor
ARTHUR VIRGÍLIO DO CARMO RIBEIRO NETO
MD. Prefeito Municipal de Manaus
Manaus AM

Excelentíssimo Senhor,

Solicito, em caráter irrevogável, minha demissão do cargo de secretário municipal de Comunicação, a partir desta data.
Agradeço pela compreensão e pelo carinho demonstrados nesses 37 anos de convívio fraterno e trabalho profícuo.
Organizei a Semcom. Ela está pronta.
Obrigado, mais uma vez, pelo apoio de sempre.

Marcos dos Santos Carmo
Manaus, 07/07/2017

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10 comentários para “O processo administrativo da Prefeitura. Ou a loucura de administrar Manaus. Ou a saída da Semcom

  1. Fefa Cacheado disse:

    Vc é um profissional brilhante e imparcial. Fez toda diferença na comunicação da prefeitura. Suas palavras são as mais verdadeiras… Estar prefeito é administrar, egos, tem que uma visão além do alcance para não se perder neste mar de vaidades. Obrigada por compartilhar conosco seu momento. Grande abraço de sua eterna admiradora.

  2. Francisco Tussolini disse:

    Ola Marcos Santos, te conheço há mais de 3 décadas. Sei que a decisão foi pensada. Desejo a vc é família toda sorte do mundo. Abraços Tussolini

  3. Dodó Carvalho disse:

    ??????????????????????

  4. Reinaldo Farias da Silva. disse:

    Grande Trabalho, agora aguardamos seus novos rumos como jornalista, sempre ouço suas opiniões, uma vez comentei no Wzp da radio por que você não escreve um livro sobre “causos” de Parintins, por exemplo aquele do Mario Adolfo “Conversa pra boi dormir” e ótimo, rsrsrsrs. Boa Sorte.

  5. Prif. Girão disse:

    Parabens pelo bom trabalho.
    E pelo equilíbrio na saída sem atirar para todo lado.
    E deixando uma janela aberta à sua competência.
    Sucesso no blog. Um abraço à companheira Teresa.

  6. Alita Falcão disse:

    Não podia deixar de aqui expressar também, depois de ler um artigo tão sincero, o meu sentimento de gratidão por esses seis meses de convivência e intenso aprendizado. Em poucos momentos podemos nos sentir tão à vontade para fazer exercer a nossa função, como você bem disse, livre de falsos elogios ou enfrentando a famosa cerca de jurubeba. A relação foi de respeito, profissionalismo e confiança na equipe. Deixou de ser secretário, mas virou um grande amigo. Em meu nome e em nome de muitos colegas da Semcom, obrigada!

  7. Almir Moreira da Silva disse:

    Almir Moreira da Silva seu amigo e companheiro de trabalho da época da extinta TV Ajuricaba sempre tive e tenho admiração pelo seu trabalho fui cinegrafista desta emissora de TV por quase duas décadas posso falar personalidade e ética foi sempre sua tônica de trabalho estou gestor escolar na rede Municipal de Ensino mais acompanho o seu trabalho abraço amigo como eu fui conhecido Chico Anísio.

  8. Fernando Júnior disse:

    37 anos??

  9. Marco disse:

    Grato pelas explicações. Destaco no texto a balança de todo aquele que administra: ficar com os “puxas” ou com os sinceros e competentes. Os gestores da política e de outros superiores hierárquicos setores não costumam muito gostar dos sinceros e verdadeiros, preferem os “babões”

  10. João Florêncio disse:

    Parabéns pelo tempo que ficou e pela sabedoria e discernimento na hora da saída. Cuide da sua amada família e da saúde também.
    Louvado seja Deus pelo que vc é: um cidadão que cuida bem de tudo que faz!

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