Crimes bárbaros, como os assassinatos do cabeleireiro no Vieiralves e de bebê em Manicoré, e o impacto na sociedade enferma

Géssica confessou que “faz uns corre” e participou da morte de cabeleireiro porque pensou que era “apenas” um assalto. Jackson matou bebê de 11 meses e depois foi gravado contando como foi

Uma das perguntas que o leitor tem feito, nos últimos dias, é se a velha tese válida para o suicídio, segundo a qual o suicida espera por qualquer justificativa, por mínima que seja, para executar o malfadado ato, está se concretizando também em relação aos crimes bárbaros que o Amazonas assiste? Ora, se é um axioma da comunicação que noticiar suicídio provoca reação em cadeia de suicidas potenciais, isso também não se aplica aos casos de outras monstruosidades humanas?

Um cabeleireiro está no meio do expediente, em dia movimentado, num salão frequentado por pessoas conhecidas, em conjunto residencial por onde quase toda a cidade passa, o Vieiralves, e é morto com disparos à queima roupa. O ladrão entrou no salão conduzido por uma mulher que se apresenta como “cliente” e, quando presa, confessa, sem qualquer pudor, que faz “uns corre”, isto é, ganha dinheiro como cúmplice de diversos crimes. E a confissão chega como uma espécie de “atenuante” na morte do maquiador: ela pensava se tratar “apenas” de um assalto.

O casal briga, em Manicoré, e a moça decide encerrar o relacionamento. O rapaz vai à casa da ex tentando reatar e não a encontra. Vê, deitado, dormindo, no auge da inocência, o bebê Vitor Manoel, de 11 meses. Toda a fúria que depositava na mulher se volta para o pequeno inocente e ele o estrangula. Como todos souberam disso? O assassino gravou um vídeo, contando como foi, instantes antes de morrer enforcado na cela.

Crimes bárbaros. Violência indizível.

O estudo sobre o suicídio, feito na Inglaterra, se transformou num clássico dos cursos de jornalismo. Noticiar suicídio incentiva suicídio. Todo jornalista que passou pelos bancos de uma universidade tem a obrigação de ter estudado isso. Ou o curso é fraco. Ou algum professor não estava à altura de preparar profissional com tanta responsabilidade.

O jornalista clássico, aquele que a sociedade referenciava simplesmente por ter acesso aos meios de comunicação, está praticamente extinto. Qualquer um, de posse de perfil no Twitter ou Instagram ou FaceBook ou, ainda, criando um blog na Internet, pode dar a própria versão de qualquer fato. Mais democrático que isso é impossível.

Os crivos – sejam os da academia, da prática ou da ética – estão cada vez mais frágeis. Se por um lado isso diminui a “ação entre amigos”, onde os poderosos eram protegidos e, via de regra, somente a arraia miúda levava couro no noticiário, por outro, os próprios desvalidos ficam à mercê do vale tudo por um like ou um view a mais.

A prática mostra que crimes, por mais bárbaros que sejam, tornam-se, tão logo praticados, quase instantaneamente, conhecidos de todos. Impossível escondê-los. O WhatsApp, outro elo importante dessa poderosa cadeia chamada “rede social”, divulga texto, vídeo, foto e áudio. É TV, jornal e rádio, as três mídias clássicas, à mão do usuário com alguns cliques.

As tiragens dos jornais, os maiores, estão hoje por volta de 15% a 20% do que foram no auge. Fan pages do Face são ilimitadas e o número de pessoas alcançáveis pelo Whats só é limitado pelo volume de contatos na agenda do usuário, num mundo em que os smartphones tornaram as agendas infindáveis.

O paradoxo não está em divulgar ou não divulgar crimes bárbaros. É mais profundo. Está nas raízes de uma sociedade enferma, cujas monstruosidades repousam na falta de humanismo e de humanidade, esperando por qualquer “gatilho” para explodir em atrocidades.

A saída é difícil. Pais educam cada vez menos e professores estão praticamente proibidos de agir, uma vez que o simples levantar de voz para aluno entrou no rol do “politicamente incorreto”.

O processo educativo entra no cotidiano de todas as formas, com políticos insistindo no “farinha pouca meu pirão primeiro”. Até os jogadores de futebol brasileiros, que atuam no Brasil, ainda acreditam no “jeitinho” de amarrar o jogo quando o placar lhe é favorável – ao contrário dos europeus, que já entenderam a necessidade de dar o máximo, o tempo inteiro, para manter o espectador ligado e a torcida ardendo. Pior, ainda tem dirigente comprando juiz, no lugar de usar o dinheiro para investir na formação do elenco.

A religião tem um papel importante no processo educativo, denunciando as aberrações e convocando a espiritualidade do povo. Mas esbarra, digamos, no conjunto da obra, com denominações mais preocupadas em arrecadar do que em evangelizar. É nessas que o pastor não pode ser duro, relatando fatos como o “olho por olho, dente por dente” do Pentateuco – a fórmula de Moisés para conduzir a multidão de 600 mil que saíram de Ramsés em direção a Sucot. Mas o resumo da Bíblia não é que se trata de “vara” (castigo) e “cajado” (ajuda)?

Verdade é que a leniência social faz estragos. Géssicas, os cúmplices, e Jacksons, os algozes, perderam a capacidade humana da piedade. Não tiveram, em suas vidas, o beneplácito da educação rígida, do exemplo piedoso dos pais ou da harmonia familiar. Ou tiveram. E as drogas destruíram tudo isso.

Com a palavra os cientistas sociais.

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