Trump e o general

Felix Valois

Felix Valois

Sempre acreditei que os Estados Unidos não teriam capacidade de produzir nada pior que George W. Bush. Quebrei a cara. O discurso de Donald Trump, na Assembleia Geral da ONU, mostrou que ele está muito acima de seu compatriota em matéria de estupidez. Somente se lhe pode elogiar a espontaneidade com que a máscara foi tirada, mas o que esse gesto revelou foi de uma hediondez ímpar, mostrando a cara de um Hitler redivivo. Ou será que a Humanidade já esqueceu a lenga-lenga do nacionalismo exacerbado e da supremacia de raça? Historicamente, ainda é muito curto o tempo que nos separa da segunda guerra mundial. E o seu fantasma volta agora a nos assombrar, com tudo o que há de horripilante em seu reino de trevas.

Com efeito, é de causar pavor a sem-cerimônia com que o presidente americano esbraveja contra a paz, tendo como mote apenas a megalomania do dirigente da Coreia do Norte e a mera insatisfação com os regimes adotados por outros países, entre eles a Venezuela. O coreano e o venezuelano não são lá flor que sei cheire. Daí a servirem de alçapão para o lançamento de um conflito nuclear deveria existir uma distância abissal. Não foi, entretanto, o que se viu a partir do visível ódio que Trump destilou ao longo de toda a sua fala. Parecia um garoto contrariado com o coleguinha que estivesse a lhe querer tomar o brinquedo, não podendo suportar que alguém conteste sua condição de imperador do mundo. “Mando e me obedeçam a qualquer custo”, foi a nada subliminar mensagem transmitida pelo presidente do colosso do norte.

Falando sobre o assunto, Arnaldo Jabor lembrou pronunciamento da então candidata Hilary Clinton, afirmando algo mais ou menos assim: “Eu sou a última  barreira de esperança entre vocês e o apocalipse”. Se era uma profecia, acertou em cheio. Como não estão comprovados os dons oraculares da senhora Clinton, cuido ter ela falado com absoluto conhecimento de causa, sabedora que era da personalidade belicosa de seu opositor.  Mas tenho que é pouco acreditar que se trata tão só de um desvio de personalidade. Não. A coisa vai mais além, por isso que implica em total desrespeito às aspirações do planeta, já tão conturbado com os atos de terrorismo embasados numa estúpida intolerância religiosa.

E se, no plano mundial, foi esse o espetáculo que fomos obrigados a assistir, no âmbito interno também tivemos o nosso momento de gaiatice macabra. Pois não é que um general (de nome Mourão, se não estou em equívoco) esbravejou que se o judiciário não resolver os problemas nacionais, está na hora de uma intervenção militar? Que admirável guerreiro! Há de lhe ter custado horas de sono conseguir formular pensamento tão requintado. Estivesse em curso um certame de insanidade, por certo esse comandante de tropas seria candidato fortíssimo a conquistar o primeiro lugar. “Com louvor”, para usar o jargão corrente no meio acadêmico.

Nunca duvidei de que a ditadura deixou herdeiros legítimos, os quais, até hoje, lutam por lhe abocanhar o espólio sinistro. Só não consigo entender como é que essas cassandras logram adeptos com tal proselitismo. A ditadura é mais recente que a guerra, não parecendo viável que se tenha apagado da memória dos brasileiros tudo o que ela representou de violência e desrespeito a direitos fundamentais do ser humano. Ademais, não se deve olvidar também que essa conversa de “salvar a Pátria” foi a mesma usada para o golpe de 1964, sendo certo que, encastelados no poder por duas décadas, os militares podem ter mostrado de tudo em matéria de ignomínia, menos qualquer respeito pela Pátria, pelo menos como eu a concebo e como a amo.

Revolta-me, é verdade, a apatia com que uma fanfarronice irresponsável como essa é recebida. Até parece que não é o próprio destino da nação que está em jogo, relegando-se ao desprezo a conquista de todo um arcabouço político, jurídico e institucional. Ladrões há. E muitos. Nem por isso dá para admitir que quatro estrelas de metal colocadas no ombro deem a alguém o direito de escarnecer de todo um povo. Que Trump e o general tenham na História o lugar que lhes

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal.

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