Burrice e leseira

Felix Valois

Felix Valois

Uma dúvida atroz me acompanha desde sempre, de tal forma que tenho de pedir a ajuda dos meus parcos leitores para esclarecê-la: a leseira e a burrice seriam uma só e a mesma coisa? Teriam esses dois, digamos, estados do ser humano idênticos elementos formadores? Nas minhas elucubrações a respeito, tenho me inclinado mais para a negativa, admitindo, porém, que eles integrem a mesma espécie. Seriam, pelo menos, gêneros diferentes, cada com características próprias, mas guardando entre si afinidades indiscutíveis. Um tipo de dialética surreal, a partir de onde será possível vislumbrar que ser leso e ser burro podem apresentar sutilezas marcantes nas respectivas identificações.

Observe bem, meu paciente leitor, que, no período acima, empreguei a aditiva “e”. Mas confesso não ter certeza de se não seria preferível a disjuntiva “ou”. Por que será isso? Fio que a incerteza vem do fato de os tais estados não serem excludentes reciprocamente, de maneira que, em casos extremos, eles podem conviver num só ente e ao mesmo tempo. É verdade, contudo, que a experiência ensina não ser muito comum a incidência dessa hipótese, surgindo ela mais como exceção a confirmar a regra de que, normalmente, a burrice e a leseira se manifestam cada uma por sua vez, respeitando a primazia daquela que mais se adeque à ocasião.

Vamos tentar a prática, esse instrumento didático, capaz de alavancar conhecimentos com extrema rapidez. Soube eu de um sujeito que foi informado da determinação das autoridades de trânsito de que os faróis dos veículos deveriam permanecer acesos durante o dia, quando trafegando pelas estradas. Atônito, demonstrando verdadeira perplexidade, a figura indagou do amigo mais chegado, com sinceridade comovente: “Mas será que agora tem que acender os faróis à noite, também”? O que, de passagem, me traz à lembrança a proeza do repentista português que formulou esta preciosidade: “Uma coisa neste mundo, que não posso compreender/É o sol nascer de dia e de noite se esconder/Dia é dia, ora essa, que vem cá o sol fazer?/De noite, sim, que é escuro, é que devia aparecer”. Não nos desviemos da rota, entretanto. O nosso herói dos faróis, foi leso ou foi burro? Ajudem-me, por favor, a sair do dilema.

Continuemos a maratona. Dilma Roussef, aquele furacão que se abateu sobre terras brasileiras há algum tempo, recomendou estocar ventos, de tal sorte que pudéssemos ter à mão, sempre que necessário, uma reserva de energia eólica. Com isso, apregoava a distinta senhora, estaríamos cuidando de setores vitais de nossa economia, salientando, na oportunidade, que o governo estava pensando seriamente em instituir a “bolsa vento”, a funcionar mais ou menos assim: o jurisdicionado que, a períodos regulares, apresentasse o maior estoque de ventos, teria prioridade para ingressar no serviço público e dispensado estaria de prestar vestibular para qualquer faculdade pública. Diga-me agora, paciente leitor: esse caso da ventania, você enquadraria em que modalidade das duas que nos vêm ocupando? Está vendo como não é fácil fazer a opção. Se, de um lado, a abordagem da questão econômica não insinua burrice, de outra face, a ideia de um vento armazenado é, a um tempo, a própria expressão da leseira e da burrice conjugadas, irmanadas no mesmo ideal de zombaria. Aliás, estou propenso a acreditar que foi a Dilma a criadora da expressão “vento encanado”.

Dizem por aí – e já termino – que todos nós temos direito a, no mínimo, um minuto de leseira por dia. Não sei por que razão os pregoeiros dessa mensagem não fazem a mesma concessão à burrice. Mas cuido ser possível extrair daí um indício muito forte de que a leseira diz mais com a negligência, enquanto a burrice teria mais afinidade com a rudeza em si mesma. Não devemos esquecer, todavia, da advertência que acima já foi feita quanto ao perigo da conjunção dos dois estados, quando ser bronco e ser negligente, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, pode causar danos irreparáveis ao meio ambiente, à sociedade e ao mundo. (Quanta modéstia!)

De tudo o que vem de ser exposto e tendo em vista que já abusei demais da paciência de todos, vou formular só mais uma pergunta: quando o Lula insiste em apregoar uma honestidade acima de qualquer suspeita, está querendo nos fazer de lesos ou de burros? Ou das duas coisas? Se alguém se quiser dar à pachorra de esclarecer assunto tão transcendental, a coluna está à disposição.

 

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal.

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